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quinta-feira, março 28, 2002
THE VOICE
Lucila...ai que bão ouvir o doce som da sua vozinha.
PEDRÃO
De vez em quando, faço o que fiz hoje: vou à uma loja de conveniência, num posto de gasolina e compro uma diet-pepsi. Não pode ser coca. Não pode ser num supermercado. Tem que ser diet-pepsi, de posto de gasolina. EU nem sou tão fã de pepsi, que dirá diet. Mas, esse é meu pequeno ritual. Pra me lembrar de meu irmãozinho. Calma. Ele tá vivo e bem, atendendo consultório, criando filho, virando doutor. Mas essa pepsi, é um brinde. Ao que ele é. Ao que ele foi. Certamente ao que ele será. Ele é meu irmãozinho. Nós nos escondíamos, imóveis, debaixo da colcha, e por isso o lobo não nos pegava. Sobrevivemos ao lobo. Sobrevivemos aos esporros homéricos e à crueldade intrínseca de meu pai e sobrevivemos à dor imensa de minha mãe - nem sei como.
E nesses dias aflitos e conturbados de perda de pai, de lidar com inventário, de contornar vagabundas e safados dos mais diferentes matizes (ah, sim, nem todas as companhias de papai eram boa companhia), ganhar bebês, para perdê-los depois, de pagar contas absurdas, de marido preso e espancado em delegacia (ah, sim, aguardem o processo), meu irmãozinho tá aqui. Sério, ele é todo sério. Afobadinho. Nervosinho. Fazendo vozinha de psicólogo (coisa mais fofa).
Eu o amo e o odeio pra voltar a amá-lo, pra me irritar com seu ar solene, pra admirar sua coragem, pra ficar chocada com sua rudeza, pra me apaixonar por sua sensibilidade. Ele me ama e me odeia, e me odeia de novo, no que faz ele muito bem, porque eu sou irritante mesmo. Ninguém, ninguém esteve e está na minha vida como meu irmãozinho. Ninguém entende minhas piadas como ele ( e eu adoro fazê-las, porque ele tem a risada mais gostosa do mundo) seus textos são geniais e suas leituras também. O abraço dele me abraça toda, da cabeça aos pés e só há duas pessoas no mundo que conseguem fazer isso. Ele breca meus medos e me dá broncas, me transformando na irmãzinha dele, me consola e me empurra mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco.
Olho pra trás e vejo que ele foi minha melhor boneca. E vejo agora que ele é meu melhor amigo.
Feliz aniversário, bobão
DONA ENCRENCA??
Renato, entendi, não vou responder seu e-mail. Mas fala pra sua mulher, que nada a ver.... ou nem fala nada, que eu sei como são essas cousas. Escreve no livro de visitas em vez de mandar e-mail, então, Rê, que eu me confundo uma hora e te arrumo confusão. Claro que eu me lembro de vc!! Qd vcs chegam a Madrid??? Olha eu num manjo nada, quem sou eu, mas o que eu lembrar de lá, te conto. E te falo tudo o que lembrar sobre As Meninas.....tou escrevendo o texto, amanhã ele tá aqui, viu?? Mas, não espere grandes cousas, é só uma ação entre amigos, eu nunca estudei arte nem nada.... vou só dizer que-que eu acho.z
HOUSEWORK
Empregadas.... digo delas o que algumas moças dizem dos homens... não se pode viver com, não se pode viver sem. Alguém já achou uma solução viável pro caso? A nossa foi fazermos tudo sozinhos. Só quando assumimos esse apê (que é pititico, 60 metros quadrados) foi que tive a noção do que vem a ser uma dona de casa e quanto respeito delas (nós) merecemos. Rapaz, num é fácil não. Eu já fui um poço de desorganização - para sorte minha e da humanidade eu cresci e mudei. Mas mesmo assim, sempre tive empregada. Em casa, meu pai tinha um certo orgulho da gente não ter que fazer nada (meu irmão, Pedrão, e eu). Qualquer tentativa nossa de ação, era recebida com a frase “Não criei filha para lavar cuecas”. Sabia que dava trabalho, que era coisa pra cacete, mas....vá fazer pra tu ver o que é bom. Penso no meu pai e rio. Hoje eu lavo cuecas e camisas e lençóis e o escambau e inda passo, depois. O Aleh, que foi um “sinhozinho” na longínqua Garanhuns, que tinha gente pra buscar copinho d’água (isso eu nunca tive), lava banheiro, lava varanda, passa pano na sala e sei-lá-eu mais o que. Meu pai achava uma indignidade. Pra ele, trabalho braçal, especialmente o doméstico, era nojento, indigno, reservado para os mais burros e despreparados. Entretanto, como cada um de nós viveria sem roupa limpa, uma casa que dá pra andar, uma geladeira que não tenta te abraçar quando você a abre??? E alguém tem que fazer, mesmo que seja você!! A não ser que você chegue na solução da Maria Inês - que tem os mais belos olhos da Lagoa da Conceição - ela encontrou a Cris e agora elas tem uma espécie de sociedade.... a Cris deve ter até participação nos lucros. Aqui em casa a gente resolveu fazendo a gente mesmo. Não existem tarefas pré- determinadas....quase não existem. Cada um faz o que tiver que fazer pra casa andar. Tem funcionado.... mas dá um cansaço...
PS: Aleh manda dizer que Maria Inês não tem os mais belo olhos da Lagoa e sim do mundo. Ele tem toda a razão.
DESCENDO O RIO NILO
Tem gente que se pune bebendo demais, ou comendo demais. Tem gente que se machuca com lâminas mesmo (ui!!), se queimando de propósito, fazendo cicatrizes no próprio corpo, enfiando brincos nos lugares mais indizíveis de sua anatomia.. Tem gente que se agride convivendo com pessoas ruins, que machucam muito verbal ou fisicamente. Tem gente que se sabota (minha boa professora Marlene, nos manda ler o que Freud tem a dizer os que “fracassam diante do sucesso”. Eita, Marlene, que entende das cousas. O velho e bom pai Freud também, aliás). Tem gente que se magoa magoando os outros, pq o sofrimento posterior, causado pela culpa é enorme. Tem gente que estoura o cartão de crédito... tem gente que se expõe demais e sofre as consequência depois.... ok, eu entendo todos esses tipos de auto-flagelação.
Mas tem gente que escolhe viajar num feriado!!! Isso eu não entendo. Isso, senhores, é masoquismo. Arrumação de malas. Cinco horas dentro dum carro. O cachorro faz cocô, o Júnior faz cocô e se vc não fez cocô foi um milagre de Deus. A Manuela toma aquele bendito Ovomaltine da máquina e vomita por toda a Mogi-Bertioga, por todo o carro, por todo o seu colo. Vocês perdem a vovó no restaurante do posto e inda tomam lição de moral do gerente, um pirralho espinhento duns 19 anos. O pneu fura e onde está o estepe?? Exatamente, debaixo das 216 malas i m p r e s c i n d í v e i s que estão no porta malas, junto da TV, do microondas, das 4 pranchas de surfe, das bóias, das esteiras, das cadeiras e do material de limpeza (material de limpeza sim, queridim, ou vc acha que o apê vai se limpar sozinho??). Ok, pneu trocado, vamos em frente.
Daí pra frente é fácil e depois de cinco blitz (numa das quais vc foi confundido com um perigoso traficante de órgãos) e que no total renderam (pra alguém, não pra vc) 387,25 reais em gorjeta (propina, suborno, ) vc chega! Isso, chega ao engarrafamento que tem na avenida que ladeia o mar....é mais de meia noite quando vc chega ao lar-doce-lar. Ahhhhh, que delícia....você desce do carro, respira fundo e se lembra porque ama tanto esse lugar. Imediatamente você também se lembra que o elevador quebrou e só será arrumado depois das deliberações da assembléia do prédio, que se reunirá em maio. Ou junho. Assim sendo, você, sua cara- metade, os adoráveis frutos do vosso amor, sua sogra e a babá, animadamente, sem praguejar, sobem e descem escadas, indo e vindo do 11˚ andar, com todas aqueles pacotes indispensáveis. Ah, que delícia.... tudo descarregado, vc só quer banho e cama, mas.... sua santa sogra não deixa ninguém dormir, até que a geladeira seja limpa, os quartos arejados e varridos, o banheiro lavado com furor cristão, e que pano com demoníaco seja passado em cada canto do seu valhacouto.
Tudo bem, tudo bem, porque amanhã é sexta-feira santa e você vai pra praia!!! Não!! Não? Não, sua mulher e sua sogra querem que você vá ao supermercado, comprar víveres para o almoço, incluindo bacalhau, que em Sampa o quilo é 40 reis e aqui é 85 reis !! Sim, sim, sim. Só quem já fez supermercado na praia durante um feriado, conhece o verdadeiro inferno. Dante não chegou nem perto. Os estreitos corredores lotados, crianças descontroladas correm sem rumo certo, tudo falta nas prateleiras e, na hora de pagar... o sistema caiu (Sempre me intriga esse mistério... que sistema? Caiu onde?). Isso quer dizer que você tem que pagar com cheque, que para ser aceito tem que receber inúmeros carimbos e nada-consta, para os quais montes de telefonemas são feitos, tabelas são conferidas e suas digitais são checadas pela Polícia Federal.
Você volta para casa e faz 114 viagens do carro para o apartamento, pelas escadas e sem ajuda - sim, as crianças estão na praia. Despeja tudo no chão da cozinha, ouve os resmungos da bruxa velha sobre sua demora, põe seu maiô-demolidor e... não, nada de praia para você: Almeirinha, a prima de Araçatuba e seu adorável marido e suas adoráveis crianças (4) e seu adorável cachorro (cruzamento de dinamarquês com bezerro) e sua adorável mãe (prima-irmã da bruxa-velha), estão aqui para passar o feriado. Pois é.
Os horrores não têm fim... de um ataque de asma do caçula da prima Almeirinha, à uma reunião relâmpago de condomínio no sábado à tarde ( articulada pelo Freitas do 53 “afinal, estamos todos aqui, disponíveis! ”), o universo conspira para te fazer subir e descer essas escadas malditas duzentas vezes por dia. As bruxas-velhas se reúnem para rir, você tem certeza, de você, o síndico pegou seu maior fumando maconha na escada de incêndio e você vai ter que pagar uma multa de 700 reis, além de aconselhamento pro pequeno infrator e sua mulher está com bolhas pelo corpo, numa estranha alergia à cozinha, imagina você. Domingo de manhã choveu, domingo à tarde você fica preso “no terceiro maior congestionamento dos últimos trinta anos” (quem faz essas estatísticas??), domingo à noite você põe o pijama e vai cedo pra cama, porque você entra na repartição 8 da manhã. Ainda bem que você descansou!!
Vá fazer terapia, maluco!!
GRACIAS
Giuliana, querida. Seu e-mail me fez chorar, nunca mais faça isso. Nunca mais. Obrigada pela força, pelo carinho, pelas coisas boas que você disse.
Eu fui ao seu site!!!!!!! (ou blog, ex-blog, página, sei lá!!). Porra, muito legal! Pq a senhora parou de escrever???? Volta imediatamente!!
Dêem uma olhada!!! Muito bom texto, limpo, limpo. (Todo mundo já percebeu, que eu gosto de layout, de templates e dessas viadagens, mas que meu negócio é texto, né?)
Você foi uma grande descoberta na rede, Giu. Bom te achar. Ou melhor: bom ser achada por você.
BAND-AID
A Zel tá dodói!! Oh, não!!!!!!!!!!!!!!!!!! Zel fica boa (mais ainda), sara logo!! A Zel me descreveu como o bebê-furão dela dorme na rede e eu tive que me controlar pra não jogar o telefone longe e ir correndo comprar um prar mim.... Fica boa, Zel.
Menina, vc viu as monas atrás do seu marido-bofe-malufista-serrista?? Garra ele!!!
LIVRO DE VISITAS
Aurora, mô bem, faz assim: vc clica nesse escreve!!! Vc vai parar no livro de visitas da Fal....vão pedir seu nome, seu mail, sua home-page....mas, tirante o nome que é bão, os endereços vc dá se quiser....a maioria do povo num bota. Daí vc escreve sua carta de amor para mim, atentando para o fato que é público, cuidado com nomes e números de telefone. Eu respondi seu mail sobre a pilantra, vc viu?? É dela mesmo que eu falo no livro, vc acertou. O que tem de vagabunda nesse mundo, não dá pra acreditar. Ou dá, sei lá.
AMEI!!
Leco, amei o e-mail!!! Amei tudo, deixa o Aleh melhorar (e nós darmos conta da fulgurante vida social do meu marido) que a gente vamos, a nível de sers humanos, enquanto pessoas.
Beijos, cuidem-se, escrevam!!!
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