Uns dias
Tem uns dias assim, sobre os quais você não quer falar. Ou melhor, você quer falar sim, mas só com quem esteve lá com você, olhando as mesmas paisagens, sonhando os mesmos quintais. Dividir esses dias com quem não viu as folhas caídas nas ruas, com quem não sentiu a chuva gelada nas costas, nem ouviu a piada do moço de cabelo bem curtinho debaixo do temporal "Ih, lá se foi a minha escova", com quem não ouviu o carro fazendo chiiiiiiiii no asfalto molhado, com quem não viu a padoca do seu Tonho, onde muito pão na chapa e café com leite já foi tomado depois de madrugadas inteiras na beirada da ilha de edição, com quem não viu a própria casa de menino, a casa onde se cresceu, a casa que é nossa para sempre, saibam os donos atuais ou não é quase um sacrilégio. Não dividir esse dia com mais ninguém é uma forma de manter o dia intocado, salvo num canto da sua cabeça onde só cabem mesmo você e quem esteve lá com você.
"O Expresso do Oriente
Rasga a noite, passa rente
E leva tanta gente
Que eu até perdi a conta
E nem te contei
Uma novidade quente
E nem te contei
Eu tive fora uns dias
Numa onda diferente
E provei tantas frutas
Que te deixariam tonta
Eu nem te falei
Da vertigem que se sente
Eu nem te falei
Que eu te procurei
Pra me confessar
Eu chorava de amor
E não porque eu sofria
Mas você chegou, já era dia
E não tava sozinha
Eu tive fora uns dias
Eu te odiei uns dias
Eu quis te matar "
H. Vianna
Tia Sil chamou todos os alunos inscritos do curso para a sala. Quem não recebeu convite ou não conseguiu entrar, escreva já pro artenahistoria@gmailcom
Se vc ainda não se inscreveu, dá tempo, mô fio.
Se avie.
Tia Silvinha mandou dizer que é a última chamada. Deus sabe que Tia Silvinha não é criatura que a gente deva irritar.
ARTE NA HISTÓRIA
Aula I
Arte. Que é isso?
Algumas teorias sobre o surgimento da arte.
Pedra lascada, pedra polida.
A vida como nós a conhecemos: as primeiras civilizações
No princípio era o verbo
Dos tijolos sumerianos aos jardins suspensos da Babilônia, passando pelos gatinhos do Egito.
Os números da Maloca
Tantos povos, tantas histórias: persas, minóicos, micênicos, hititas, lídios, medos, dóricos fenícios, cartaginenses e, ufa, hebreus
Aula II
Se oriente rapaz I: China e Índia
As crianças da Grécia
Os geniais etruscos
Roma e a não-arte
Aula III
Balaio de gatos: bárbaros germânicos, arte românica, gótica e a Idade Média
Construindo catedrais com a Ana Paula
Se oriente rapaz II: Japão
Aula IV
Humanismo
Grandes navegações: o mundo diminui
A terra é mui graciosa, tão fértil eu nunca vi
Apertem os cintos, o Papa sumiu
Aula V
O barroco francês, Rembrandt, Bach e outras coisas do século XVII que fazem meu coração sorrir
Bebendo café com o Mauro
Aula VI
Carneirinho, carneirão: o Arcadismo
Born in the USA
Eu sou Napoleão Bonaparte
Linha de montagem
Aula VII
Vizinhos Reais
Noutras palavras, sou muito Romântico
Romantismo Português, ó pá!
Eu te amo, porra! - Romantismo no Brasil
Evolução: 'Sua mãe pode até descender dos macacos, mas a minha não'
Aula VIII
A vida como ela é: O Realismo
A Natureza é tão natural
Simbolismo
Lerê Lerê
República ou morte
Impressionante
Freud, explica!!
Aula IX
Século novo, vida nova
Espartilhos e grandes bigodes: a Primeira Guerra Mundial
Futurismo, cubismo, dadaismo: é ismo que não acaba mais
Modernismo: Brasil e Portugal
Derretendo relógios
Fazendo moda, fazendo arte
Nós cantamos na chuva
A Segunda Grande Guerra
Baby boom
O anjo pornográfico
Aula X
Flower Power, o passaporte pra revolução
As veias abertas da América Latina
Coca-cola é isso aí: a publicidade e o divino, e as malas da Carla San
Moda, cinema, literatura, poesia, arquitetura, teatro, pintura, escultura, publicidade, rádio: stress puro ou seu dinheiro de volta.
O Havaí seja aqui : internet, a nova arte e o diário coletivo
De volta à pintura de paredes: os novos urbanos
( ¨eu vi o Tom Jobim cantando isso ao vivo no Palace, e dançando sozinho no palco também, de chapeuzinho panamá, porque nem tudo nos anos 80 foi azul royal e ombreiras quilométricas)
Ontem eu sai de casa bem cedo para buscar um trabalho e para ir ao correio. Na volta para casa, a manhã nem tinha começado direito ainda e eu parei no mesmo lugar que a D.M. havia me levado na sexta-feira. O lugar chama Empório Tutti e é dos poucos lugares que faz cappuccino de verdade nessa terra, por incrível que pareça. O que vc encontra de cappuccino palha em São Paulo é uma loucura. Enfim, eu vi o lugarzinho ali, descendo a Giovanni e nem pensei, estacionei e entrei (uma coisa interessante sobre mim, adorado leitor, já que esse blog é inteiro dedicado à minha augusta pessoinha:se eu penso, não faço. Se não penso, faço - e digo, rá - a coisa errada). Bão, eu entrei, disse oi pras mesmas pessoas simpáticas que me atenderam da outra vez. Sentei, li estarrecida o trabalho de cunho hediondo que me aguarda e nadei numa incrível xícara de cappuccino. Fiquei lá um tempinho. Paguei, conversei um cadim com as donas e saí.
Só quem tem síndrome de pânico realmente entende o que eu acabei de dizer. Eu entrei num lugar e tomei café! Como se eu fosse uma pessoa normal.
Mas tem mais. Só quem perdeu seu amor realmente entende o que eu acabei de dizer. Eu entrei sozinha num café. Sozinha. Porque é isso que eu sou agora. E me poupe do seu discursinho "nós nascemos sós e morremos sós", decorado da orelha do livro de filosofia. Nem me conte nada do tipo "eu, Fal, eu sou ótima companhia para mim mesmo". Pois eu sou péssima companhia, para mim e para os outros. E isso aqui não é um livro de auto-ajuda.
Eu entrei ali sozinha. Sozinha. E enquanto eu bebia meu café e olhava pelo janelão eu me dava conta de novo disso. Vivo me lembrando disso, 200 vezes por dia. De que acabou. E de que não tem ninguém me esperando em casa, ou voltando para casa, além de mim.Voltei para cá e havia silêncio. Paredes esburacadas e gavetas vazias. Um cachorro deprimido e gatos revortosos. De noite fica escuro. E o silêncio continua. Esse apartamento pequeno se transformou num casarão que vive vazio mesmo quando eu estou aqui. Porque, na verdade, eu não estou aqui.
Eu quase fiquei feliz porque ontem tomei um café sozinha.
Mas aí eu me dei conta de que tomei um café sozinha.
Se vc ligar na minha casa e a Telefônica te contar que meu telefone não existe, insista, ligue no celular, sei lá. A Telefônica agora deu de dizer que meu telefone é inexistente, o que muito me surpreende, posto que as contas são mais realistas que o rei.
*
Se você pediu algum dos derradeiros Crônicas de Amor, saiba que seu livro foi pro correio hoje. Aleluia irmãos.
* O curso. inscrições até dia 31. E a Silvia é brava com datas. artenahistoria@gmail.com
* Caixas de papelão e jornais. Além dos fofos Zel&Fer, Juju&Sandrinha, Maloca, Paulo&Cláudio, Macedo, Lauro e Bel M., tem mais queridos querendo me trazer caixas. Não. Parem. Muchas gracias, mesmo, mas não precisa mais. A minha vida tá toda empacotada (inclusive os livros que eu, agora, preciso pra dar aula, hohoho, mas tudo bem, como nos ensinou a bela Alline, camiseta de otário pega fogo até molhada). O que falta empacotar é nada, e com as caixinhas que a bela Maloca me traz de quando em vez eu vou dar conta.
Jornais, a mesma coisa. Na verdade, inda tem mais de 100 garrafas de vinho 'imexidas' e no dia de tirá-las daqui o ninho delas será de jornal, mas de novo, a bela Maloca me salva: a Dona Aurora, nossa mãe, tá desviando jornal do centro de reciclagem do prédio delas, então zuzo bem. Os jornais de Maloca serão suficientes pros vinhos nanarem até a casa nova.
* Camisetas. Guentem a mão nos emails, que no final de semana eu falo com vcs sobre elas.
* Campinas. Campinas é dia 10. Tão ligados?
* Palhaçadas em geral. Aguentar estoicamente a palhaçada alheia é sinal inequívoco de que vc se tornou um adulto responsável e maduro. Acho que tou ficando velha e sabida, apesar de Antão e Peixoto tarem debaixo do edredon, tomando tódi morno numa canequinha do Mickey e vendo desenho animado, numa clara tentativa de boicote. Alguém me perguntou por email o que vestem Antão e Peixoto neste frio chuvoso. Pijamas de pezinho, claro! Menos em noite de gala. Dai eu visto fardinha de marinheiro neles, haha.
LV sendo liberado no decorrer do período de acordo com nossas parcas possibilidades, mas sem comentários graciosos e pertinentes, porque realmente oo tempo urge e o leão avonça.
"Fal, lembrei da frase do ante-coito: Vamos à cópula!
Às vezes, posso variar e mandar: Atenção à cópula!
E pra finalizar o tradicionalíssimo: Obrigado!
Se bem que eu gostei do "vamos ao colóquio!"
Qual você acha mais funcional, profunfo ou apropiado, Fal!?? Qual destas você gostaria de ouvir naquele momento do ante-agora? Qual te poria em êxtase total?
O duro não é ser romântico, conquistador nem arrebatador, Fal! O duro é não ser isso tudo!
Beijos mil,
EU
P.S.: Cacete! Você não esquece daquela sua frase sobre sexo, heim! Naquela frase tem mais sociologia do que nas 900 páginas do Euclides, Fal! Pra dizer o mínimo!"
*** A Frase
Atendendo a pedidos, a frase telefônica da Fal: "Trepar é a biologia ao alcance de todos"
Esse blog não está de altíssimo nível, leitores?
E respondendo ao querido 'EU', as frases mais lindas de qualquer mulher ouvir são:
Antes "Vamos fazer um amorzinho gostoso?"
"Isso é celulite?"
Depois "Gozou?"
"Quer um táxi?"
Nós nos apaixonamos na hora, não é, meninas? Irresistível.
"Fal, adorei as histórias de Antão, Peixoto, Fal e Baco.
Faça muito carinho no Baco por mim, Fal.
E também achei lindo o que o seu professor disse: que tem gente que ama a gente. E que tem gente que ama a gente como a gente quer ser amado.
Nunca tinha pensado nisso, não assim, parece óbvio e é genial! Poderia ter economizado alguns anos de análise. Porque se não sou amada como quero, fico com a sensação de que não sou amada.
Estou sempre lendo o LV, adoro, morro de rir.
Mas prefiro não comentar e enviar e-mail.
Beijos com carinho.
T."
É linda... ser amado como a gente quer ser amado é tão raro, tão difícil e tããããão bom.
Ah, Deus como é bom, como é bom.
Que nós duas, querida minha, possamos ser amadas, e mais, amadas como queremos ser amadas. Um pouco de egoísmo e delírio nesse final de sexta-feira, esse dia chuvoso, mas cheio de capuccinos e, ah, de futuro. Fazia tempo que eu não tinha um dia com tanto futuro.
Te amo (espero que dum jeito que te faça feliz)
Fal
10:04
Antão e Peixoto vestem a Fal. Antão e Peixoto vestem a Fal com uma saia suja de graxa. Antão e Peixoto são uns burrinhos.
10:15
Antão e Peixoto sentam quietinhos tomando a primeira fanta uva dáiete do dia, enquanto a Fal trabalha no documento de um cliente. Ao contrário da crença geral, a Fal precisa trabalhar sim e, ahá, a Fal sabe sim o que diz e o que faz. Bem, não muito.
10:19
Ao levar a Fal para atender o telefone (e era engano), Antão e Peixoto tropeçam no prato de água dos gatos. O corredor fica a maior meleca e, enquanto a Fal limpa tudo sozinha, Antão e Peixoto fazem campeonato de arroto.
10:49
A Drica Maeda passa para buscar a Fal. Elas têm que ver um negócio. Drica Maeda é das poucas criaturas desse mundo que ainda acreditam no discernimento da Fal, então Fal implora a Antão e Peixoto que eles se comportem e que a deixem conversar com a titia. Antão e Peixoto não escutam, porque estão concentrados tirando meleca e grudando atrás do sofá.
11:10
Fal leva Drica Maeda para ver uma das coisas que ela selecionou. Na hora de entrar Antão e Peixoto tropeçam no degrau, mas Drica Maeda está à frente e não vê. Fal suspira aliviada e belisca os dois.
das 11:51 às 16:03
Drica Maeda e Fal passam por dois capuccinos cada, uma coca, uma água tônica, dois risotos e um café expresso, falando da burrice humana em geral e da estupidez delas em particular, das coisas que são, das pessoas que só parecem, dos que devem ser grifados e dos que devem ser riscados da agenda de cada uma. As camadas de azul dos olhos de Drica Maeda não tornam as coisas menos aterrorizantes, ainda que Fal soubesse da missa quase toda, mas enfim, pelo menos o terror fica mais bonito. Drica Maeda e Fal falam da vida e do futuro e da arrogância como produto de troca e venda. Antão e Peixoto ficam com um pouco de medo do mundo em geral, então Fal deixa que eles comam picolés e inda dá derreau pra cada um comprar gibis. Eles passam a tarde entretidos e calminhos.
6:59
São momentos felizes na vida de Antão e Peixoto. Eles estão fresquinhos e descansados, tudo vai bem. Enquanto a Fal põe mais comidinha para os gatos (eles comem a madrugada toda dando o maior preju) e vigia o leite dela no fogão, eles fazem alongamento e se preparam para a longa jornada. A Fal toma seu nescau quente. Ela não baba. Milagre de deus.
7:03
Preparados e bem dispostos, Antão e Peixoto assumem o comando do cérebro minúsculo e despovoado da Fal, que até o presente momento operava por instrumentos. Eles a mandam trocar a areia dos gatos. Ela vai. Eles esqueceram a areia. Ela volta para pegar. Daí eles esqueceram o saco de lixo. Ela volta pra pegar. Ela troca areia sob a estrita observação dos dois. Tudo bem. Na hora de ir jogar o saco fora, Antão espirra. A Fal perde o rumo, bate com o saco na quina do sofá, o saco rasga, a Fal xinga, Antão e Peixoto se escondem detrás dum coqueiro que tem no cérebro da Fal até que ela, operando novamente por instrumentos, limpe aquela nojeira toda.
Sim, eu tenho dois neuroninhos. Que não valem por dois bifinhos. São só dois, mas são de estimação. Eles são criaturinhas abobadas, mas fofas, Antão é grande e bobo, Peixoto é pequeno e mau. Eles são algo assim como o Pink e o Cérebro do mundo neuronial.
Mas, ao contrário das personagens americanas, o sonho de Antão e Peixoto não é dominar o mundo. De jeito nenhum. O sonho deles é, um dia, conseguir tomar o nescau sem babar. Um dia na vida deles é coisa sensacional de se ver.
06:32
Baco pula na cama e morde a cabeça de mamãe. (desde que papai morreu, Baco não dorme mais trancadinho na área de serviço, Baco dorme ao lado da cama de mamãe, numa cadeirona de tecido). Mamãe, que acorda sempre bem humorada (isso é verdade), fala fofulências com Baco, chama ele de fofinho, de bebezinho e abraça ele um pouquinho, pq sem papai, Baco está deprimido e triste. Bom, ela também.
Antão e Peixoto, que dormem debaixo da cadeira de Baco, num tapetinho, acordam com a fofura, esfregam os olhinhos e pimba, pulam pra dentro da cabeça da Fal, a mãe de Baco.
Amor
Falei com meu professor no telefone ontem. Meu querido, meu amor, o cara que me deu um mínimo de estrutura e luz, numa fase da vida que, ai, era tudo tão doloroso.
E ele me disse uma coisa linda. Disse que tem gente que ama a gente. E que tem gente que ama a gente como a gente quer ser amado. E que eu sou do segundo grupo, eu o amo como ele gosta de ser amado.
Então, com as palavras do Paul na cabeça, eu li o Gigio. Ele me ama. É um amor que me comove, sabe, porque é revestido de delicadeza e eu sou muito, muito sensível à delicadeza, à meiguice, à doçura. Eu gosto mesmo de ser amada assim, Gigio, e espero retribuir seu amor assim também.
Mil beijos, querido. Roubei seu texto, porque, ah, eu não sou tão delicada. Nem tão educada.
Te amo.
( e eu espero, sinceramente, que a criatura tenha lido e entendido seu recado, porque vc merece ser tão, tão, tão feliz)
Eu te dizia da sensação sem nome que me assalta a razão. Da necessidade de fazer acontecer. Do não desperdício. Do brinde e do grito. Do silêncio aflito e da terra molhada. Te dizia que existe tanto entre nós que me ata, que me faz caminhar em círculos. Das rosas e dos tons. Do início, do meio, do fim e de todo recomeço que a gente nasceu sem o mapa. Da esquerda, da direita e das outras opções. Do banho de chuva. Do toque e do arrepio, dos olhos e dos navios e da aquarela, eu desenho um sol amarelo, que descolorirá para que se cumpram os destinos. Eu quero parar a cidade e declamar os melhores poetas sem parecer inteligente ou atrevido. Poesia na medida do possível ou uma cachaça para esquentar e balançar o chão, música para te dançar, canções para te afirmar a juventude e as pistas, o suor, aquela euforia que é contagiante e efêmera. A intimidade das pernas, a coreografia dos corpos, o arrebatador instigar, de toques e reações, consentir, permitir, a troca de vida, não peça permissão para entrar ou sair de mim. A propriedade conquistada. De toda a nossa coleção de momentos, hoje eu quero te dizer que tudo é possível. Dentro ou fora de uma lógica, in or out, dear. Quer ser meu companheiro de viagem? Embriagado de nós dois, não vou te ouvir responder. Diga sim, precisamos de pouco. Basicamente eu e você. Os detalhes a gente vai tecendo, as dificuldades a gente vai sorrindo, as delicadezas a gente vai se apropriando, o amor a gente vai cuidando. Como ontem, como hoje. Como agora. Te dizia do que não existe entre nós. Do que é palavra, mas não se basta como verbo, substantivo, gramática. É íntimo. Sensações. Sentimentos. Do que nos faz sorrir, do que nos tomba lágrimas, do que nos faz dançar e nos move. De dentro para fora. Mexe com o humor, o apetite, os desejos. Mexe com a saúde, a saudade, o que é simples. Algo entre um lago em dia de verão e a escala Richter em último nível. Do desejo de correr, gritar e voar. Dos efeitos mais comuns de sentir raiva, bater o telefone, xingar. Um ato sexual não coreografado. A mesa pronta para o jantar com todos os elementos românticos em ordem, você leu em algum lugar. Do embolar e do encaixar. Dos raios e das tormentas. Do agora e do instante. Essas palavras. Esse ponto final que encerra o texto. E nos leva adiante.
Eu te dizia tudo isso sem dizer.
E você não me disse que.
E eu te disse.
E você não me.
Mas eu.
E você.
Constatações "Top Gun é uma merda, Fal. (...) Como eu era ingênuo, meu Deus!!! Mas aquele american way of life é tão gostoso de engolir e acreditar. Jovens belos, motocicletas belas, mostrando sua virilidade e o tamanho de seu falo ao voarem queles jatos poderosos, foder a professorinha, sacanear o diretor e o bedel e ser chamado de o melhor do mundo. Pô, Fal! Fiz muito menos que isso e me convidaram pra sair do Gávea....
Fal, não esqueça de dar um toque pra Tia Silvia falar comigo sobre o teu curso, tá?!
Beijo, Leo"
Deprimida demais para responder ao LV, comer, receber visitas, pensar em receber visitas, falar, falar ao telefone, atender o interfone, fumar, empacotar coisas, remexer em roupas e fotos e papéis, matar o monstro da pia, trocar areia dos gatos (mas isso eu fiz), responder emails, tomar banho (vou fazer um dia, tenham fé, mas acho que não hoje), arrumar a cama, escrever aulas e/ou tudo, menos chorar, beber fanta uva daite e ter maus pensamentos. Mas fui obrigada a voltar aqui pela minha gerente executiva, Tia Silvinha, que mandou eu dizer duas coisas:
1) Alguns não entenderam, pq eu falo duma forma confusa mas: VC NÃO PRECISA MORAR EM SP PRA FAZER O CURSOOO! O curso é virtual. Talvez role café uma vez por mes com quem estiver em Sampa, mas é só pra fins de troca de fluídos corporais, a gente não vai salvar a civilização numa tarde de sábado. Certo? O CURSO É TOTALMENTE VIRTUAL.
2) Com orgulho e sastifação da parte da Drops Corporeichon, e com alívio da parte de minha gerente executiva, informamos que temos pouquíssimas unidades do Crônicas de Quase Amor. Mas pouquíssimas MESMO. Quando acabar, acabou. Meus herdeiros serão proibidos, em testamento, de relançar esse livro. Nunca mais vai ter Crônicas de Quase Amor. Quem corocou, corocou. Se vc quer, trate de se candidatar, não espere no Natal. No Natal vc poderá comprar unidades do O Nome da Cousa, encalhadíssimo. Pudera. livrosdafal@gmail.com
Era isso. Antão e Peixoto comeram olho de cabra e tão intochicados, dormindo no capachinho (é com 'ch', Vera??) debaixo da cadeira de Baco (a cama de Baco é uma cadeirona de tecido).
Os gatos abandonados e infelizes tão na sala, sem falar comigo.
E eu vou voltar pra minha caverna, donde nunca deveria ter saído.
Olááááá
Eu deveria ter seu telefone? Seu endereço? É? Então, faz favô, manda email com tudim de novo, ou liga (caso vc não tenha perdido meu telefone). Pq eu perdi minha agenda. E meu telefone celular. Um dos. Aquele que tinha 89% de todos os números de todo mundo, sabe qual? Esse. Então. Vai de mal a pior a coisa aqui, queridos. Já tomei minha medera de vodequinha, já dei boa noite pra minha sogra e pra zel, vou tomar uma boletosa e mimir, pq realmente, tá foda.
Se cuidem.
"Tia Fal, dá conta de fazer uma terapia express básica comigo? Olha, tem um gatinho. Fofo. E ele me adora. Mas Fal, é só aquele láláláiá. Nada assim, de mais consistente. Ele diz que não quer relacionamentos, nem os casuais. Ele só quer bater papo e mesmo assim só de vez em quando. Daí ele some nos finais de semana e eu fico esperando, mas ele não liga. Eu sei que ele me adora, mas acho que ele tem medo de se envolver. Será? E eu quero ele tanto, Fal.
beijos
L.M."
Bicheca linda do meu colação. Eu não conheço o seu gatinho. E só posso dar conselho do que já vi e vivi. Então me ouve sem ficar com raiva de mim? Lindona, existe a enorme possibilidade dele não te querer. Não é que ele não queira um relacionamento. Ele não quer um relacionamento com vc. Assim ó, que ele não queira casar, ter filhos, hipoteca e comprar um papagaio, vá lá. Tia Fal também não quer. Mas ele não quer carinho, beijo na boca e pés quentinhos encostadinhos nos dele? Rá. Faz assim, ó, titia também acha isso dificílimo, mas é uma questã de treino e cacentração: suma. Se ele quiser te ver, ele vai ter que te convidar. Se ele quiser te ler, ele tem que mandar o zé maiou. Se ele quiser te ouvir, ele tem que ligar. E se não aparecer convite, ligação, zé maiou, amore, ele não te quer. E não, ele não te adora. Salte de banda, homem assim é a maior roubada do século, em qualquer século do milênio. Pinte a cabela, faça aula de javanês, vá viver. E não, eu não vou dizer que o cara que te dá valor vai aparecer, pq no mais das vezes ele não aparecem. Qts amigas mais lindas e inteligentes e espertas que eu tão suzinhas? Montes. Vá lá que ser mais linda e esperta e inteligente que eu não é grandes coisas, mas vc entendeu. A vida não é um filme da Doris Day. É bem provavél que não apareça ninguém. Mas esse cara, seja lá o que for, é roubada, pq beiba, ele não te quer. Se ele te quiser ele vem atrás, quilida. Mas, experiência própria, não fique esperando. Provavelmente ele não vem. Blé.
Anyway, com a palavras as moçoilas em flor do LV, muito mais sábias que eu.
Mais um serviço DROPS CORPOREICHION: VOCÊ VÉVE, A GENTE SE METE
Venho por meio desta informá-los que nos últimos dias de novembro e/ou primeiros dias de dezembro, estarei em terras cariocas para beijar meus dois sobrinhos mais novos, antes que eles esqueçam que Tchitchia Bibiiiiiiii existe (em meados de dezembro farei o mesmo em Garanhuns, para os meus dois mais velhos tb guardem Titia Fabia na retina).
Isto posto, gostaria de deixar claro que em estando em plagas fluminenses continuarei facinha como sempre, aceitando graciosamente convites para passeios, jantares, tertúlias, reuniões de condomínio, sessões de teatro de resistência, acampamentos selvagens, festinhas com violão, cafés da manhã para nós dois, saraus, jogos de mímica, ações de despejo, pores -do-sol românticos, compras de livros variados na Travessa (por conta de vcs, é evidente), chás da cinco e variadas trocas de fluidos corporais com e sem beijo na boca.
Aceito tb ficar em vossas casas hospedada, dando despesas de toda sorte, mimando crianças, comendo a última fatia de bolo, pedindo roupa emprestada, usando toda a água quente, chegando bêubeda e vomitando no pé do síndico,tomando o restim de café da garrafa, fumando vossos últimos cigarros, estragando cachorros, dando comida escondido pros gatos e quebrando bibelótis de valor inestimável - caso a sogra do mermão num me queira na casa dela (e eu nem posso imaginar porque ela não me quereria).
Entrem em contato com meu staff e agendem o melhor dia preu explorar vcs de modo vil.
Sem mais
Fal, cara de pau
Na boa
Tão vendendo panetone no Panizucar. E a Maloca viu uma casa enfeitada pro Natal lá na Pedroso. Na boa, caras, tamos em outubro, vcs não comecem a me dar nos nelvos, sim?
Abertas as inscrições do felomenal curso de Arte na História.
O curso é totalmente virtual.
But... se houver quem se interesse, faremos reuniões mensais só pra fofocar aqui em São Paulo.
Não, não precisamos estar todos conectados ao mesmo tenpo para mandar e receber aulas.
É legal e bacana, é a quinta vez que eu dou esse curso na rede, sempre dá certo (né, ex-alunos??). As aulas, modestamente o caralho, são muitíssimo bem escritas e eu pego na sua mão pra te explicar as cousas. Além disso, vai ter atividades paralelas, discussões paralelas, esse vai ser de arrebentar.
Peça informações aqui: artenahistoria@gmail.com
E divulgue no seu blog, se vc achar que deve. Convide seus alunos, seus amigos, seus correligionários. :o))))
ARTE NA HISTÓRIA
Aula I
Arte. Que é isso?
Algumas teorias sobre o surgimento da arte.
Pedra lascada, pedra polida.
A vida como nós a conhecemos: as primeiras civilizações
No princípio era o verbo
Dos tijolos sumerianos aos jardins suspensos da Babilônia, passando pelos gatinhos do Egito.
Os números da Maloca
Tantos povos, tantas histórias: persas, minóicos, micênicos, hititas, lídios, medos, dóricos fenícios, cartaginenses e, ufa, hebreus
Aula II
Se oriente rapaz I: China e Índia
As crianças da Grécia
Os geniais etruscos
Roma e a não-arte
Aula III
Balaio de gatos: bárbaros germânicos, arte românica, gótica e a Idade Média
Construindo catedrais com a Ana Paula
Se oriente rapaz II: Japão
Aula IV
Humanismo
Grandes navegações: o mundo diminui
A terra é mui graciosa, tão fértil eu nunca vi
Apertem os cintos, o Papa sumiu
Aula V
O barroco francês, Rembrandt, Bach e outras coisas do século XVII que fazem meu coração sorrir
Bebendo café com o Mauro
Aula VI
Carneirinho, carneirão: o Arcadismo Born in the USA
Eu sou Napoleão Bonaparte
Linha de montagem
Aula VII
Vizinhos Reais
Noutras palavras, sou muito Romântico
Romantismo Português, ó pá!
Eu te amo, porra! - Romantismo no Brasil
Evolução: 'Sua mãe pode até descender dos macacos, mas a minha não'
Aula VIII
A vida como ela é: O Realismo
A Natureza é tão natural
Simbolismo
Lerê Lerê
República ou morte
Impressionante
Freud, explica!!
Aula IX
Século novo, vida nova
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Modernismo: Brasil e Portugal
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A Segunda Grande Guerra Baby boom
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Moda, cinema, literatura, poesia, arquitetura, teatro, pintura, escultura, publicidade, rádio: stress puro ou seu dinheiro de volta.
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De volta à pintura de paredes: os novos urbanos
Noite de Autógrafos Luxo, Poder e Glória com Fal Azevedo
Dia 10/11/2007, sábado
A partir das 19h00
No Tilli Center, em Barão Geraldo, Campinas - SP
Av. Albino J.B. Oliveira, 1600
Contato: 19 3289-4266
Maiores informações: livrosdafal@gmail.com
Cigarilhas, Coca-Cola e Pistache: atravessando um mar de alegorias
Estou velha demais, cansada demais, sofrida demais e em carne viva demais para aturar babaquice (quase de todo tipo), indecisão (de todo tipo) e mensagens dúbias (também de qualquer tipo). Ou é ou não é, sejamos claros, já que não podemos ser todos vilasoneanos. Amigos adorados e em pequeno número sentados na sua sala salvando a civilização ocidental ajuda o desconforto a ir embora, mas nem tanto assim. E depois os queridos rumam ao desconhecido, a sala escurece e você para pra pensar e... mais clareza que a minha impossível, é o que seu pequeno cerebrozinho minúsculo acha, a não ser que se escreva letra-por-letra no céu, o que convenhamos, não é o caso. E o que é que você tem a ver com isso, querido leitor? Provavelmente nada, embora sem saber quem você é eu não possa dar garantias. Mas como muito bem salientou o belo M.no sábado, para seleta platéia (embasbacada por seus olhos de cachorrinho), ajuda a dizer certas coisas em voz alta. Ajuda muito. Não resolve mas, hum, ajuda.
(ps: revirando velhas - pero no mucho - gavetas emocionais começo a achar que as mensagens não foram nada dúbias não, foram até que bem claras e eu que não tive alcance para entender)
*
Paulo Autran morreu, liga L. para contar. Alexandre, Pavarotti, Autran. Alguém pelamordedeus bota uma réstia de alho em volta do pescoço do Verissimo e planta um crucifixo no bolso da camisa dele, que eu não posso mais sofrer esse ano, sim?
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Ah, pensando ainda sobre o outro assunto, valem as sábias palavras da minha avó "Quer, quer, não quer, tem quem queira". No caso ali, não tem quem queira, mas você entendeu, adorado leitor. Para bom entendedor, meia pa ba.
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Minha amiga está pensando em trocar de carro e tem me levado junto pras concessionárias da vida, apenas e tão somente pela bondade de seu coração: o feriado é longo, embora a vida seja breve, e ela se agonia de pensar em mim sozinha, trancada com fantasmas neste apartamento anacrônico, todos os dias de folguedos ("Folguedos" foi uma homenagem a M. e suas referências literárias de altíssimo padrão). Ainda existe gente assim, querido leitor. Enfim, sei que é doçura do coração dela, mas ao mesmo tempo, gosto de pensar que posso ser útil, já que faço muitas perguntas, peço tudo por escrito, infernizo a vida dos vendedores futucando tudo. Mas o principal dessa experiência toda é que mesmo perguntando tanto, nada esconde o fato de que o mundo dos adultos me apavora: ouço os detalhes dos financiamentos, carnês, as decisões, cor metálica, calota cromada, retrovisor de cortesia, os quilômetros por litro e me apavoro. Caraio.
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E os tapas na cara, adorado leitor? E o povo que não quer ser bem tratado? O que eu - carente profissa e sindicalizada - mais quero nessa vida é ser bem tratada, de modos que não entendo. E os caras que pegam suas gentilezas, seu sorriso, suas manifestações de apreço e doçura, carinhos no braço, mimos e gargalhadas e dispensam m-e-s-m-o?? E nem é carinho do tipo "Vamos trepar", que deus nos ajude, é carinho do tipo "Sejamos bons uns com os outros, porque a vida lá fora é uma merda sem fim" - o melhor tipo de carinho, o melhor tipo de amizade. Outra cousa pra qual eu estou velha demais e sem tempo demais: gente que voluntaria e conscientemente recusa-se a ser querida. Beibe, vá se catar.
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Carro, como diria meu pai, quem tem dois, tem um. Quem tem um não tem nenhum. Meu senhorzinho de idade, o Pejôzim, tem 11 anos. Ela tá cansado, fraquinho, tem gota, é hipertenso, arterioesclerose e vaza óleo. E eu nem o levei ao médico, porque sei que vai sair uma facada. Então, a cada ladeira murmuro "Só mais essa, filhinho, só mais essa, que mamãe tá pobrinha e seu plano de saúde venceu". Ele tem me atendido, ainda que a contragosto, mas sabe deus até quando. Devia ter um SUS pra carrinhos velhos, sabiam? Aiai.
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Já que falo de calhordas de todos os matizes, tenho que falar de mim também: as duas meninasmais belas fizeram aniversário na semana que passou e eu picas. Cadela.
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Cantei para H. As Cantoras do Rádio, Rui. Cantei no tom errado, desafinei, perdi o pé, mas H. se emocionou sinceramente, chorou e eu fiquei feliz em ter cantado, apesar da vergonha abissal. Ser amada por alguém como H. é um privilégio apra poucos, que acontece raramente na vida, ainda que eu não mereça.
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G. sabe, porque ela passou por algo assim. Ela me olha meio de banda e seu nariz é fininho e seu cabelo é perfeito e ela se veste como ninguém (H. diz que ela é a mais bela dentre nós, e H. tem razão) e ela me olha e eu apoio a minha mão na perna dela e ela aperta a minha mão e eu sei que ela sabe. Mas nós não falamos sobre isso porque não há a menor necessidade.
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São mais ou menos 780 emails acumulados, eliminados os que querem aumentar meu pênis, me emagrecer dormindo e me ensinar alemão fluente, seja lá o que isso signifique, em 8 semanas. E quais eu escolho para ler? Os que magoam. Não os que emocionam, entenda, os que magoam. Enquanto eu não aprender a deletar o destinatário sem ler, os anos de terapia com a bela Dra Liliana terão sido em vão, a verdade é essa. E eu que sou sempre ligeira para responder à criatura, li, li, li e fui dormir sem responder. Meu sábado podia ter acabado sem essa, sério mesmo. Entre os rabos de arraia e o começo deste abominável horário de verão, não é de se estranhar que eu sonhe estar me afogando por toda a madrugada. Definitivamente, não entendi o enredo desse samba, amor.
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Sábado, ao se despedir de mim na porta do elevador, ela passou pelo meu pescoço a echarpe que estava usando "É para você, está com meu perfume". Nada me toca mais que esse tipo de gesto impensado, de atenção, de demonstração gratuita e não-planejada de amor. Entrei, recolhi as coisas, beijei atinhos, botei Baco no travesseiro ao lado do meu, vesti o jajama de florzinhas e dormi com sua echarpe encostada em meu rosto. Hum, e chorei um pouco antes de dormir, não de tristeza, mas de pena de mim, e não me envergonho em dizer.
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Vou lá, ver mais carros, mais concessionárias, investigar com profundidade e singeleza de coração qualé a do amortecerdor opcional e se vale a pena a trava elétrica, enquanto deixo minha amiga fingir que não está cuidando de mim.
Bom domingo.
Nós que passamos para o segundo grupo vos saudamos.
Novas palavras que eu não consigo dizer
"Própria"
"Esmalte"
"Inventariante"
"Jardinagem"
"Azulejar"
"Projeto"
"Arquiteto"
"Publicar"
"Rateiro"
"Certidão"
"Vizualizar"
"Manobrista"
Esforço de reportagem
Eu zerei aquele LV. Espero que todos reconheçam o quanto eu me sacrifco pela causa, o quanto eu me dou pelo partido e o quanto eu sofro em silêncio. Vou pra rua. Beber a tempestade.
Otávia
A pele do dorso da mão dele encosta na dela na porta do bar. Ele no banco da frente, tão longe. Escolha dele, ela deveria mesmo saber. O riso dele enche a sala, a sala toda, a alma, os potes da cozinha, as memórias. O riso dele transborda nos vasos empacotados, escorre pelas prateleiras que não existem mais, encolhe a tristeza e afasta o Nada, que exatamente como num livro que ela leu, engole tudo o que vê e estava quase no batente da porta antes dele chegar. Mas o riso dele não é dela. Ela sabe disso e não sabe, entende e se recusa a entender. Ela acredita piamente nos poderes mágicos da negação. O nariz dele ela acha lindo, meio curvado para baixo. Ela gosta da obsessão que ele tem pelos anos 80, do seu cheiro de pinho, do seu cabelo que perdeu os cachinhos castanhos. Ele gostou do cabelo dela, abriu a porta do carro e ela passará o resto do tempo se apegando a gestos sem sentido algum. Ele tem orelhinhas pequenas e ela se comove, como se isso significasse algo para alguém em qualquer momento, como se isso mudasse o tempo que passa, a história universal, os rumos do Senado: ele tem orelhas pequeninas e bem feitas, que ela gosta de olhar. O que eles foram, o que eles querem, o que eles não poderão ser, o que eles nunca tiveram. As palavras impensadas, a cena do filme, a justificativa exagerada, o Mercado de Pinheiros e ela ligando e dando vexame, balbuciando sem nexo e se sentindo ridícula enquanto é ridícula mesmo. Manga rosa, desamparo, barracas de uva passa, ametista, unhas brancas, coisas não ditas, zona oeste, um cachorro com nome de música, suspiros via Telefônica. Dela. Os suspiros, quero dizer. As moças gorduchas e vacilantes do século XIX não têm lugar nos dias que correm, sua submissão, sua confusão mental, seu atropelo com as palavras e seu desejo de passar o resto da vida de avental, sovando a massa da pasta e assando bolos de laranja. Otávia sabe disso. Mas ela não sabe de verdade. Os poderes mágicos, como eu já lhes contei.
Uia, môs benzinhos:
Martha Galrão ( www.mariamuadie.blogspot.com) é a poeta que vai se apresentar – ao lado de Wesley Correia – no Projeto Poesia na Boca da Noite , no próximo dia 16 de outubro (terça-feira), às 20 horas, no Restaurante Grande Sertão, em Salvador.
Martha Galrão é baiana, filha de Ramon e Iray; irmã de Antônio, Maurício e Marília; mulher de Haroldo e mãe de Beatriz. Professora e poeta, seu maior sonho é "um dia ser índia, viver pelada, / pintada de verde, / num eterno domingo..."
Então
Então que eu nunca fui das mais espertas. Nunca. E quem me conhece há mais tempo tá balançando a cabeça e concordando em silêncio (sei quem vocês são e odeio todos). Mas vai daí que desde que o Alexandre morreu, eu piorei. O que era de se esperar. E os espertos, que sacaram que eu não valia muita coisa antes de tudo acontecer - e menos ainda sem o Alê -
retiraram de propostas de trabalho a convites pra jantar. No que fizeram muito bem. Então é assim, algo aconteceu com meu cérebro, e eu tou com dificuldades de falar coisas como 'cérebro'. 'Propósito'. 'Beligerante'. 'Cabelereiro'.'Geriatra'.'Rodovia'.'Impermeabilizar'. 'Equipamento'. 'Liquidificador'. Ah, e eu também virei uma dupla caipira de um só, sabe dupla caipira né, quando um só sabe ler e o outro só sabe escrever? Então, eu consigo traduzir, com graça, vocabulário bacana e malemolência, qualquer coisa do inglês pro português, do espanhol pro português. Mas não consigo fazer o caminho inverso. Não consigo passar nada do português pro inglês. Ou pro espanhol. Nessas horas, é como se eu não falasse os idiomas. Se você me pedir pra traduzir um texto pro alemão é capaz de eu ter menos dificuldade, e olha que eu nem falo alemão. Falei com minha psicanalítica mãe, que disse que é isso mesmo. E que o processo pode demorar meses. Falei com um neurologista que disse que é isso mesmo. E que o processo pode demorar meses. O neurologista viu meu desespero e perguntou se eu sei a diferença entre direita e esquerda. Eu disse que não, mas que eu já não sabia antes do Alexandre morrer, eu nunca soube, eu era um aleijão no maternal e não aprendi vááários conceitos básicos. Ele riu e perguntou se eu entendo o povo falando em inglês e em espanhol. Eu disse que sim e que continuo sonhando em espanhol, como sempre. Ele perguntou se eu tou dirigindo bem, fazendo coisas miúdas, como costurar, bem, se eu abotôo a camisa direito. Tudo bem. Ele sacudiu a cabeça e disse que eu tenho que ir tentando, mas sem aflição e sem me cobrar demais e que vai demorar.
E por que é que eu tou te contando isso? Por que, meu filho, se eu não reclamar aqui com você, vou reclamar onde, meu deus do céu?
Olá, tesourinhos da juventude.
Tudo bom?
Dia 6 rola uma jantinha nos domínios de Dona Drica Maeda, vcs vão?? É tipos Falmigos-encontram-a-família-dinossauros. Acho que a data limite de inscrição é hoje, mas caras, dá tempo. Escrevam pra Faby, que é ela que organiza a parada: faby@rainhasdolar.com