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sexta-feira, março 30, 2012

Querido Nelson

Sonhei que a neve fervia

Querido Nelson.
Você me pergunta da Dor.

Se eu ainda sofro muito. Se eu me conformei.

Se.

Quase nunca me perguntam sobre a Dor.

Meu irmão, às vezes.

Às vezes ele me pergunta "E aí, bela?", daquele jeito absolutamente invasivo e completamente respeitador da intimidade que só os irmãos têm.

"E aí? Dói? Ainda dói? Como é que você está?"

Nunca aconteceu dele perguntar sem que eu tivesse uma crise de choro bem ali, na frente dele. Para isso, também, servem os irmãos. Para testemunhar nossa vida, nossa dor. Um irmão, em última (e em primeira) instância é uma testemunha. Ele testemunha seu nascimento (ainda que tenha nascido depois de você, você me entende, não?), seu crescimento, a forma como você aprende (no meu caso, não muito). Seu irmão estava lá quando você vestiu as calças pela primeira vez, quando você finalmente aprendeu a dar o laço no cadarço nas congas ("Primeiro uma orelha do coelho, depois..."), ele é testemunha da primeira volta sem as rodinhas de apoio na bicicleta, dos primeiros pelos, do primeiro cigarro. Um irmão é uma testemunha, ainda que ele não se lembre de tudo. É o único cara nesse mundo que, mesmo reagindo de formas diferentes, passou por tudo, tudo junto de você, do mesmo lado da mesa.

Quando meu irmão pergunta da Dor, é a Dor dele também. Porque ele também perdeu e porque a Dor, a minha Dor, dói nele como em ninguém mais. Ele sabe o que viu, o que eu disse e o que omiti. Ele sabe das crises de vômito, dos ataques de choro, das latas de leite moça mamadas de madrugada. Ele sabe das manchas e das cicatrizes, das garrafas que chegam sem nenhuma mensagem. Só ele tem o mapa dos atalhos, a combinação do cofre e infinita paciência para metáforas ruins. Ele se lembra.

De qualquer forma, Nelson, falo pouco da minha dor. Colocá-la em palavras é quase impossível e veja bem, gosto das palavras. Mas às vezes, querido Nelson, nem todos os verbos do mundo são suficientes. Minha dor afasta as pessoas, mesmo quando não mencionada, imagine se eu saísse por aí dando detalhes e corando pitangas. Falo pouco da minha Dor. Falo muito da minha Dor. Não toco no assunto. Falo nela o tempo todo.

Que bom que você perguntou, não é todo mundo que pergunta. Quase ninguém pergunta. Quase nunca. Nossa velha certeza de que não falar é fazer não existir. (Tenho uma amiga chamada Ângela que costumava dizer sobre meu ateísmo e, acho que também sobre o dela "Fal, você acha que se não acreditar no Mal ele não vai alcançar você, né?").

A Dor, Nelson, está aqui. Todos os dias. Às vezes barulhenta e histérica, às vezes usando terninho de tom sóbrio e cabelos presos. Ela está aqui todos os dias porque eu estou aqui todos os dias. Existir com Dor é como andar dentro da piscina, você já fez isso? Custa mais para chegar à outra margem, mas você chega. Chego, todos os dias, à outra beirada.

Sim, já me conformei. Não, nunca vou me acostumar. Sim, dá pra levar. Não, tem dias que não consigo sair da cama. Sim, tenho bons amigos e rio e saio e vejo filmes e canto e batizo bebezinhos e vou a casamentos e tento lembrar todas as capitais do mundo na cama com Bernardo, o sobrinho de 10 anos, e deixo Victor, o sobrinho de 5, subir em cima de mim e ser o Homem de Ferro que destrói sei-lá-eu-quem e salva o mundo, não para a democracia, mas para o Barney (só sei que tomo porrada pra burro). Sim, os dias são adoráveis. Não, os dias são a coisa mais monstruosa que já enfrentei na vida. Sim, tudo vai ficar bem. Não, não há esperança, esquema, salvação ou plano B.

A Dor, Nelson. Você entende?

Beijos, carinho

eu


COMENTE! | 16:02

 


quarta-feira, março 28, 2012

'... toda confissão não transfigurada pela arte é indecente'
Mario Quintana


COMENTE! | 17:51

 


terça-feira, março 27, 2012

Pras corujinhas:
Entrevista comigo hoje na CBN, no programa do @Alves de Mello, CBN Madrugada. Começa à meia-noite e vai até as 4 da manhã. Não a entrevista, fios, o programa.
Ouço o programa dele no site, o linque da CBN funciona bonitim.


COMENTE! | 23:46

 



Também é um tipo de flor**

Ave Cesar. :o)
*
Vai daí que você escreve um recadim curto no celular para mandar para a amiga enquanto está na fila, só pra dar um oizim. E você termina o maldito recado com um "Tinhamo". E manda. Pra quem? Para o cliente. É claro. Cliente este que responde com um "Também tinhamo". Gente, por favor, alguém me cobre de porrada. Agora.
*
Ei. Quando falei de pão de banana no drops ali doutro dia, num tava falando mal, pelamor. Se você ia colocar um pão de banana no correio para mim, vá em frente. Tava reclamando porque trem é bom demais, não de menos. Vocês parecem que não me conhecem.
*
Gente. O pedreiro que canta voltou! Não dá para dimensionar o tamanho da minha alegria. Escancarei a janela do Apart Hotel do Conde Drácula para que sua voz maviosa adentre nos rincões desta miserável masmorra. Hoje ele está cantando uma que eu não conheço, tem pinta de canção sertaneja, mas que diz assim 'é a primeira vez que alguém me faz choraaaaaaaaar'. Olha, coitadinho, o fim de semana dele deve ter sido pior que o meu. De qualquer forma, enquanto não descubro que música é essa (a Célia da minha mãe disse que da casa dela não dá pra ouvir direito), tou só seguindo. Amo gente feliz que canta, amo. Vô Zé trabalhava assim, cantando.
*
A gente avisa prazamiga: NÃO namore com escritor. Azamiga não escutam. Olha.
*
Amigos revoltados com minha falta de apego ao mundo tecnológico planejam botar uma tornozeleira eletrônica ni mim. Para ficar fácil de me achar. Não tenho telefone fixo. A casa tem, porque a casa é da minha mãe, e o telefone é dela e não dou o número para ninguém porque não é meu. Simples assim. Tenho um celular. Que nunca nunca nunca sei onde está. Ou melhor, sei. Ele está onde não estou. Sempre. E desligado ou sem bateria, o que torna tudo muito mais interessante. Não tenho saco pra maquininha, digital ou não (bão acho que tem que ser digital, onde revelar filme hojindia, tem que ir em xópis? Não vou a xópis, jamais. Quer dizer, só se Bernardo quiser ir, porque sobrinho é soberano. Nenhuma convicção hippie guenta uma chinela de sobrinho-mais-lindo-cabelinho-cacheado-boquinha-de-coração, eu digo. E Victor, a criatura, segue o caminho do mau, versão cabelo lisinho). Não tenho aquelas maquininhas de ler livro. Meu carro não é. Não sei baixar filme. Desconheço músicas compostas depois de 1993 e/ou feitas por compositores nascidos depois de 1977. Não tenho cartão de crédito. Não tenho GPS. Sexta-feira andei com dulcíssima cliatula que, além dum daqueles carros de rico que não precisa destravar a porta (gente, a fofa ficou 10 minutos parada do lado da porta de passageiro esperando 'destravar'. É muito triste), e de não ter manivela pra descer os vidros, inda tem GPS. Com nome lindo, que não vou contar porque vou roubar pra minha próxima história. Minha modernidade alcança tevê a cabo, porque estes olhos não pousam mais em tevê aberta nem que Jesus volte _ isso mesmo, tevê a cabo, aquele treco que não é coisa moderna há 25 anos, eu sei, é procê ver. E computador, porque gannho minha vida nele. Cabô. O mundo com caixas eletrônicos, cancelas automáricas, portas mágicas, maquininhas que mexem o ovomaltine suzinhas e microondas-pra-fazer-pipoca me deixa fascinada. E não me pertence. Não entendo como nada funciona e não sei usar/não tenho/não quero noventa por cento desses trecos. Meu pai costumava dizer que eu não entendia bem como funcionava carimbo e, claro, ele tinha razão, é complexo. De modos que, se as gracinhas que mandaram e-mail desaforento quiserem botar tornozeleira ni mim, botem, mas se alguma luz piscar ou o trem apitar, caio no choro.
*
"Se alguém souber de mosteiro para ateus, me avise, por favor"
Eduardo Almeida Reis, no Estado de Minas
*
"Avise a todos nós, Eduardo"
Silvana, no meu skype


(**Amor Barato, Chico Buarque)


COMENTE! | 12:32

 


segunda-feira, março 26, 2012

Pais e filhos

Verônica diz: Baco tá charmoso em seu estado de ignorar você?

Fal diz: Baco e seu filhinho, o gatinho nevinha, tão dormindo no sofá

Verônica diz: Baco tá na crise de meia-idade, né?

Fal diz:Baco nasceu em crise de meia diade

Verônica diz: HAHAHAHAHA! Daqui a pouco ele verá que filho não
resolve os problemas e danará a beber

Verônica diz: esconde as pinga tudo

Fal diz:Hahahaha!! Ai, Verô, te amo


COMENTE! | 12:46

 


quinta-feira, março 22, 2012

minúsculas

fofocas literárias. 'fulana e fulano, os dois casos mais flagrantes de falta de cama da literatura brasileira', e ela 'bom, fal, até álvares de azevedo trepou mais que esse cara'. hahahaha, ô deus, é tão gostoso ser malvado. e ela inda completa 'se fizessem uma lista de garanhões da literatura, *** não seria citado, choraria uma menção honrosa e surgiria o datena gritando "quero ibagens!".
*
stalker de escritor. realmente, tá faltando serviço por estas bandas, governo dilma precisa abrir mais concursos, frentes de trabalho, fazer mais obras pra copa. tem um pessoal precisando mesmo misturar cimento, com todas as implicações freudianas que vossa senhoria quiser imputar à afirmação.
conheci um, meses atrás, louco de atar. e eis que conheço outro indagorinha. não meu, graças a deus, quem sou eu pra ter stalker. amém.
*
somewhere there was a village missing an idiot, só digo isso.
*
eduardo diz: falzinha, tirei do forno bolo de camomila com aveia e erva doce. cobertura de frutas secas e grãos... quer um pedacinho?
*
o-pedreiro-que-canta (lembra do fantasma-que-anda, meu querido? é, você) foi embora, e a tristeza reina nos corações. acho que vou chamar a célia para tomar café aqui.
*
pão de banana. não tá fácil pra ninguém.
*
'As máquinas de escrever, manuais ou elétricas, eram aparentadas com os casamentos do tempo de antigamente: havia entre elas e o escriba o tal laço indissolúvel que sempre caracterizou os matrimônios sérios. Minha Remington portátil (ainda operacional) data dos meus 12 aninhos, quando pedi ao meu pai uma Harley-Davidson azul e ele voltou da cidade com a máquina de escrever. Naquele dia, fiquei triste, mas hoje reconheço que ele teve carradas de razão'

eduardo almeida reis, no estado de minas. certíssimos ele e o pai.


COMENTE! | 18:01

 


segunda-feira, março 19, 2012

The winds of March that make my heart a dancer*

Falei dos dez anos de Drops e esqueci da coisa mais mais mais importante: Fabinho.
Sem Fabinho não tem Drops, não tem nada. Fabinho, esta doce criatura, de quem sou teúda e manteúda há tanto anos, que me acode, acalma meus chiliques, sopra meus dodóis, jura que quando eu casar vai sarar, desvenda os mistérios do html, arruma meus linques, conserta minha burrices homéricas, responde sorrindo aos meus muitos e-mails de 'ai, Fabinho, socorro', mantem os pratos todos no ar ao mesmo tempo e me guarda do réquers. Fabinho. Sem Fabinho não tem Drops e nem um montão doutras cousas boas, muito melhores que o Drops. No dia em que escrevi dos dez anos do Drops, tava triste, mexida, tinha guentado uma tremenda porrada que não deveria absolutamente ter vindo em minha direção e tinha chorado pacas, e dai que fiz um post capenga e boboca e esqueci de falar do mais importante: Fabinho.


Fabinho, querido, muito obrigada, uma década feliz e querida que só aconteceu por sua causa.
*
Dei entrevista aqui para a querida Helena, falando do Almeida Reis, citando Alex Castro, até aí, tudo bem. Mas daí mando um tcharã! , boto tudo a perder. Eu não me dou ao respeito, é isso.
*
You see, mon ami, the voices of the little gray cells have begun to sing to Poirot
*
Achei que depois da volta do azul royal dos anos 80, Santo Agostinho assumiria o comando, resolveria a parada e tal, mas não. Santo Agostinho não me atende, por mais que eu leia suas sábias palavras. Voltaram o azul royal, o veludo molhado e, socorro, o macacão. É fugir pras montanhas, porque só cobrir a cabeça de cinzas e meditar não tá resolvendo. Olha.
*
Quando tem luz, não tem internet, quando tem internet não tem gás, quando tem gás o aquecedor vai pras picas e eu lavo as melenas na água gelada, quando tem tudo eu que não tou dando conta. Hahahaha, falta quanto pro fim do mundo?
*
O moço dentro do caminhão da Eletropaulo, esperando a chuva acabar pra fazer os reparos no poste, de fone na oreia dançando e cantando como se não houvesse amanhã. Tipo, DJ da Nave Mãe, vou contratar.
*
Livros. Uma coisa melhor que a outra. Menos o Vaimaraner. Li meu primeiro Vaimaraner e vou dizer, mil vezes a série de tevê, as séries de tevê, a alemã (hahahaha, minha mãe vai ler isso no computadô do quarto dela, gritar de ódia e eu vou rir daqui do Apart Hotel do Conde Drácula) ou a inglesa. Achei o livro uma bomba. Os outros livros devidamente comprados são bãos. Vou fazer lista.
*
Daí, comprei DVD do Anjos e Demônios porque uma mulher precisa de barulho enquanto trabalha e eu amo a voz do Tomranquis enquanto ele salva o mundo. Só Deus pode me julgar.
*
Baco tem um filhinho novo. O gatinho nevinha. E fica com ele na boca, bota ele na caminha, foge com ele quando algum dos gatos de verdade (enemingos jurados de morte) se aproximam. Daqui, donde trabalho, posso ver, papai e filhinho deitados debaixo da mesinha de café, vendo televisão abraçadinhos. Essa casa é ridícula.
*
A vida tá conspirando pra me mandar pro Rio em maio e me fazer ficar lá um tempão. Não me responsabilizo por nenhum de meu atos quando em terras fluminenses, porque como é sabido por todos, o que acontece no Rio, fica no Rio. Mais ou menos.
*
Na frente da HBO, fui ver aquele Curb your enthusiasm, num raro momento de folga e num guentei nem 4 minutos. É um Seinfeld muito, muito piorado. E eu na minha santa ingenuidade achando que nada poderia piorar Seinfeld. Bó.
*
Pasta de dente sabor kiwi. O mundo vai acabar em breve, amigos, e vai ser bem feito pra todo mundo.
*
Um dos sobrados aqui da frente enfrenta reforma cruel. O pedreio é sensacional e canta o dia todim. Na tarde de sexta-feira, estava aos brados 'Só uma palavra me devooooooraaaaaaa!'. Hahahahah, gente, quem inda não se mudou pro Brócolis, deveria mudar. Isso aqui é um espetáculo.
*
Deito na frente da televisão às 20:40h pra esperar pelo Bill Maher e durmo. Durmo, durmo, durmo, criaturas idosas dormem na frente da televisão, num horário que a maioria das pessoas nem começou a passar o rímel pra partir pro crime numa sexta-feira. Olha.
*
A triste verdade é que, a não ser que exista um prazo me mordendo os calcanhares, oito da noite é minha horinha de cama. Coisa triste.
*
Telefone:
_ Fá, eu.
_ Oi amor.
_ Oi.
_ Que passa?
_ Tô com seu livro na mão.
_ Opa, legal.
_ ...
_ E aí?
_ Achei do cacete.
_ Filho, você leu em menos de um dia?
_ Não, Fá, claro que não. Mas ele fica em pé.
_ HAHAHAHHAHA!!
_ Livro que fica em pé é mil por cento.
*
Nada se compara à arrogância de quem tem pai vivo. Nada. Como dria meu queridíssimo Alexandre: 'Sucesso'. Sinto inveja, claro.
*
Recado de amor da Mel pelo celular. Olha.
*
Pausa no trampo pra pegar soda e tá a mã na sala, comendo pão com manteiga e vendo o Maigret metido nuns pijamas azuis claros e enfiado na cama. Como aquela criatura pode resolver crimes vestindo pijamas azuis e debaixo das cobertas, jamais saberei, mas ver a mã, perninhas esticadas, comendo pãozinho e falando com a televisão é uma das melhores coisas da minha vida.
*
A Congás manda o pobre do moço pra arrumar o aquecedor às dez da noite dum sábado SEM PILHAS. Gente. Banho quente é atividade importantíssima e pra qual nós, criaturinhas mimadas e birrentas do século XXI, não damos o devido valor.
*
Agora mordo meus dedos, exatamente como meu pai fazia. Sem sentir, sem perceber. De repente, me assusto com a marca da dentada roxa-avermelhada na falange do indicador. Vamos bem, muito obrigada.
*

*Essa música divinal não me sai do pensamento, These Foolish Things, Marvell / Strachey / Link. É de 1936, coisa mais linda. Ia colocar a bela Ella cantando aqui, mas né.
*

Some women were destined for widowhood, marriage was just the obstacle in their way
K. Atkinson


COMENTE! | 08:23

 


quinta-feira, março 15, 2012

O Drops faz 10 anos hoje. Merecia uma comemoração muito mais linda, esse blog que me deu tanto. Tomou tanto, também, claro, é da vida.
Mas enfim. A comemoração não deveria ser esta, mas é o que temos para o momento.
Se você ainda está aqui, se você só está aqui agora, se você vem e vai de quando em vez, se você.
Obrigada.
Foram 10 anos muito interessantes.
Feliz 10 anos, Drops.


COMENTE! | 11:19

 


terça-feira, março 13, 2012

but I've been down here before and I know the way out

é mais ou menos isso.
*
Moro aqui há quatro anos, nunca entrei na casa da Célia. Não fico ligando pra Maloca, não dependuro na Isa. Não fico puxando a Naty pro meu buraco negro de carência, nem implorando pro D. me levar ao cinema. Não ligo pra Suzi nem um décimo das vezes em que penso em ligar. Fico na minha, trabalho, cuido dos gatos (mais ou menos), durmo. Há um tempo, amigo mais do que gentilmente, me apresentou virtualmente amiga que ele adora. Uma fofa. Mas eu sou mesmo esse bicho do mato. A moça é do tipo "vamos ali tomar café agora já porque sim". Não consigo. Nem com a minha mãe. Nem com o Pedrão. E nem é por nada, é porque não tenho mesmo assunto. Sempre penso nisso, a gente senta numa mesa e eu digo o que, meu Deus. A gente vai falar sobre o que? Te conto, porque já passei por isso mil vezes. Sobre nada. Vou balbuciar coisas sem sentido, engasgar e, mil purça de certeza, babar café na blusa. É de praxe. Saio com Maloca, e tomamos lindos cafés da manhã olhando pras árvores e pros guris de skate. Naty. Maria Catarina. Gente com quem posso ficar no mais absoluto silêncio por semanas, se preciso for. Helena. Fabiano Camilo, com quem houve uma cruza de santo quase paranormal e que não liga pro silêncio. Enfim. De quando em vez ofendo alguém, fico arrasada. Queria demais ser a alma da festa, flanar pelos salões, almoçar com grupos, presidir a mesa. Ao vivo, sou uma tragédia, uma ode ao caipirismo, ao sem-jeito e a total falta de capacidade de fazer social. Fui dar uma oficina de redação. Dei, falei, contei, todo mundo riu. Cabô, bar. Fui, claro, que eu só ofendo ozotro sem querer, nunca de propósito. A moça sentada ao lado, a noite toda me vendo naquela total falta de assunto, métrica, rima e plot, riu. "Você lida bem com palco, né, só se atrapalha na vida real".
É isso.
*
Vai ter livro, né. Ah, não: já tem livro, hahaha. Lançamento oficial em São Paulo e Rio, ao que tudo indica. Aviso das datas quando souber. Não precisa de convite pra entrar nem nada (aviso, porque ninguém tem obrigação de saber dessas cousas e no lançamento do último teve gente não indo porque o convite não chegou).Se você quiser receber um convite dá tempo: manda endereço pro fal.drops@gmail.com
Mas saiba: convite às vezes não chega. Vou contar aqui, no Facebook, pelo aí. E você, se quiser, com ou sem convite, vai lá!
:o)
*
Almoço com D. Lá pelas tantas, suspirei "Esse bife tá uma delícia". E ele: "Estamos falantes hoje, que beleza". Aiai.
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Eu adoro meu trabalho. Eu adoro adoro adoro meu trabalho. Deve ser pecado gostar tanto assim do trabalho da gente, mas eu adoro meu trabalho.
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Não se deve viver para os elogios. Sequer esperar por eles. Quem foi filha do meu pai, aprendeu isso bem cedo. Mas alguns elogios, vindo de quem se admira profundamente, elogios secos, gentis, curtos e pronto, acabou, valem mais do que se pode esperar. Fazem o dia, justificam um trabalho. Compensam tanta coisa.
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'Fabia, Fabia, Fabia', posso ouvir dona Neide, minha melhor professora de redação remungando, 'você ainda começa frases com mas?'. Pois é.
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Do que adianta ter uma identidade secreta no twitter se todo mundo sabe quem eu sou? Não sirvo presse negócio de 007. Que lástima.
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A quantidade de bareses chamados Victor nesta família é um espanto. O meu vem pro telefone, canta alguma coisa cuja origem desconheço, faz milhares de perguntas sem esperar resposta, grita coisas num idioma estudado pela NASA, reclama que eu nunca mais fui lá como se fosse uma tia-avó de 110 anos e grita o pai "Papai, tchia Bibi", tipo, assume essa mala, pai, porque pô.
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Bernardo e a linguistica. De onde vêm as palavras, de onde veio o francês, estudando italiano como se fosse prestar Itamarati na próxima semana, porque tais palavras se parecem, tchia Bibi?, como diz isso em latim?, (a pobre criança é cheia de ilusões, mas deixo, porque né, é a única pessoa do mundo que ainda tem ilusões sobre mim. Quero dizer, boas ilusões.). De brinde, tem um guri de 10 anos me fazendo análise do discurso, mas assim, implacável, nada da gentileza das academias, não, pá e pumba, tchia Bibi, isso aqui é assim, você vive dizendo isso, você falou disso noutro lugar e eu acho que você se perdeu, tchia Bibi. Olha.
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Credo, o Alpino tá parecendo chocolate Pan. Que coisa horrorosa.
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Vivo preocupada com os procedimentos. Fulano fez isso, faço o que agora? Ninguém tá nem aí, só eu, claro, Ansiosinha Babaquara da Estrela. Ainda bem que existe a Camila, que entende dos caminhos da vida e pega no braço das velhinhas gagás que querem atravessar.
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Every saint has a past and every sinner has a future. — Oscar Wilde


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domingo, março 11, 2012

Sonhei que a neve fervia

Sonhei que a neve fervia

Aqui e aqui


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terça-feira, março 6, 2012

Notas sobre um trampo que acabou

Mesmo o mais ateu dos seres que vive de freela vai confirmar: temos receio de reclamar. Receio de reclamar e que, de vingança, os deuses-pagãos-que-nem-existem-do-mercado-informal mandem não a peste, a praga de gafanhotos e a matança dos primogênitos, mas os computadores que fervem, as impressoras que atolam e... nenhum cliente. Apesar disso, nas últimas seis semanas, reclamei muito. Reclamava e depois mandava um ‘não que eu esteja reclamando...’, mas estava, claro. Se em algum momento achei que o segundo semestre do ano passado foi matador no quesito ‘trampo para dedéu’, não acho mais, porque as últimas seis semanas abriram uma nova janelinha no sentido de expressões como ‘não aguento mais’, ‘não lembro a última vez que tomei banho’, ‘não saio da frente desta tela há 39 horas’ e ‘Baco.... que Baco?’.

O trabalho nos livra de muitos males, inclusive a insolvência e eu, que lamentavelmente não estou apta a me candidatar às graças dum gentil patrocinador, não tenho muita escolha.

O trabalho seve proutras cousas também. Serve para ‘vou pensar nisso depois’.

Só que um dia, como hoje, a parte pesada do trabalho acaba. Às três e meia da manhã, quando os gatos não me reconhecem mais e o cão vira o rosto quando passo, quando perdi dois aniversários, três convites de almoço e três sinfônicas (você já está com pena de mim?), a parte pesada do trampo, desta leva de trampo, acaba e o vou pensar nisso depois me alcança.

(Claro, tem muito trabalho ainda, cenas de sexo selvagem nalgum ponto do Mediterrâneo, atas de reuniões, textos indecifráveis sobre arte muderna, tudo isso precisa de tradução e é nessa hora que o tradutor limpinho e ateu pergunta ‘posso ouvir um amém?’)

Mas vai dai que são três e meia da manhã, e eu olho em volta do apart hotel do Conde Drácula e, praque dormir? Começo a pendurar blusas acumuladas de semanas de tinturaria, dobrar e guardar semanas de mudinhas lavadas e largadas. Vou fechando e guardando os muitos dicionários, pondo no estojo canetas com e sem tampa, isqueiros, coisinhos de tinta, as pecinhas que compõe o dia de alguém que trabalha em casa e é a própria tia da faxina. Enquanto isso, vou pensando, pensando, no tempo que passou, nas coisas que fiz e não fiz, nos 41 anos que dia 16 de fevereiro me alcançaram e dai lembro do nó que está há tanto tempo debaixo do meu coração: o meu amigo se matou.

O meu amigo se matou há dias, muitos dias, mas eu estava perdida em frases que não eram minhas. Em dicionários sem capa. Em trajetos que não conheço. O meu amigo se matou e havia prazos e clientes zangados e pressa. Pressa. O meu amigo se matou, mas a família não permitiu que ninguém visse o corpo, que foi levado para fora da cidade, num avião. O meu amigo se matou, mas eu não podia parar, entende, tinha mesmo que entregar essa papelada e decifrar essa expressão e dominar o jargão e levar o pen drive pra imprimir no Nelson, porque a impressora morreu.

Meu amigo se matou e não parei sequer por um minuto pra pensar nisso. Não falei em voz alta mais do que duas ou três vezes. Meu amigo se matou.

Ele não suportou mais isso tudo que todo mundo diz que não suporta mais.

Quando Alexandre morreu houve Natália, Tela e Carina, Maloca, Maliu e Esther, Ana Laura e Rui aqui e lá, mas houve o meu amigo.

Numa encruzilhada profissional sem precedentes e um pai rico e paciente, meu amigo estava à toa. O diploma de jornalismo enfiado na gaveta, uma vaga ideia sobre uma fazenda em Minas, meu amigo tinha tempo e carinho. Para me ouvir chorar. Para rir das minhas músicas.

Sabendo que eu sou um cocker spaniel e não posso ver uma janela de carro que já quero pular lá pra dentro, meu amigo me enfiava no carro dele, que tinha um cheiro tão bom, e me levava pra passear. A gente não ia, necessariamente almoçar ou à Livraria da Vila ou ao museu. Se nosso passeio acabasse dentro da Pinacoteca ou da Cobasi, duma loja de queijo em São Roque ou dum café na vila Madalena, era acaso. O que a gente fazia era pegar o carro e rodar. Em silêncio. O silêncio que você só pode se permitir na presença dum amigo. Um silêncio que não fica esquisito, porque não precisa ser preenchido.

A gente rodava, vidros abertos, quietos. Eu chorava, parava, chorava de novo, parava. Sem tirar os olhos da rua, sem olhar para mim ou para o que estava fazendo, meu amigo abria o porta luvas e me dava uma caixa de lenços. Eu podia fazer isso, já sabia onde estava, mas esperava. Porque pegar os lenços para mim era uma das muitas coisas que meu amigo me fazia.

Gosto da Lapa e de Pinheiros e da Pompéia e de toda aquela parte da cidade onde viveu meu avozinho Affonso e ele sonhava com uma daquelas casas. Então, passeávamos horas e horas por lá, horas, horas, todos aqueles verdes e os sobradinhos, e as ruas largas e os cães e as babás.

Durante os primeiros meses do meu luto, ou eu estava em Caxambu, ou eu estava traduzindo, ou eu estava com ele, zanzando pela cidade, numa metáfora muito boa da minha total falta de ponto de chegada, aquela ausência de destino ou motivo, a explicação que nunca chegou.

Ele foi imensamente bom para mim, o meu amigo. Nunca tomei tantos cafés, nunca comi tantos biscoitinhos de amêndoas (os meus e os dele), nunca bebi tanto vinho no gargalo sentada no capô do carro, de mãos dadas, nariz na curva do pescoço, na praça do por do sol quanto naqueles meses após a morte do Alexandre. Nunca fui tão infeliz, tão desesperadamente infeliz (é diferente agora, agora é tudo muito calmo) nunca ouvi tanta música dos anos 80, nunca fui tão amparada.

Meu amigo se matou e eu não podia parar.

Parei hoje, parei agora, parei finalmente e choro com a boca quadrada, com muita, muita raiva, com pena dele, de mim, de dor, de solidão e de impotência. Choro muito tempo, meu amigo de cabelinho crespo, nariz lindo, cílios curvadinhos para cima, mãos mornas, Nelson Rodrigues decorado na cabeça, cuja risada era um trovão, com o melhor dos sotaques paulistanos, calças jeans azul claro, botinas cor de caramelo. Ele colocava meu cabelo atrás das orelhas, me dava o biscoitinho de amêndoas do café dele e cortava meu bife, sem dizer uma palavra. Meu amigo se matou e é isso, a frase acaba assim, não tem 'mas', não tem vírgula salvadora, não continua na próxima página.

Choro hoje, como posso, como sei, por uma morte que nunca esperei chorar e pego, eu mesma, a caixa de lenços no armário do banheiro.


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domingo, março 4, 2012

Caixa postal

"Fal, raramente o mundo conspira contra nós, embora devamos ressalvar que, como bem disse o Henry Kissinger, até mesmo os paranóicos têm inimigos! :)
Nelsinho"


COMENTE! | 21:16

 



Making a searching and fearless moral inventory of ourselves


Blog largado, flores, mas os dias úteis têm tido, em média, 15 horas. Se bem o LVtá em dinha.
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Ela até quer ir, mas precisa checar com as amigas se pode. Pois é.
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Homens com certezas demais. Tenho evitado. Homens de frases definitivas. Porque sim. Porque EU sei. Olha. Tenho evitado mesmo.
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O DETRAN precisa rever sua política e resolver como evitar que homens de pau pequeno caiam atrás do volante de carros grandes. Sou quase uma pedestre, ainda bem, porque a situação está para lá de assustadora.
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Crivella. Ministro. Ministro. Crivella. Ministro. Crivella. Crivella. Todo mundo comigo (rumo à Nave Mãe, por supuesto).
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O problema das alianças. Um dia, elas têm que ser pagas.
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É ótimo sair daqui de quando em vez, para me lembrar de porque não devo sair. Devo aprender com o imortal Almeida Reis, esta sábia criatura, que diz que costureiras e escritores devem ficar quietos, em casa, ganhando o pão, e não na rua, gastando o dinheirinho suado com coisas pouco dignas. 'Boa romaria faz quem em casa fica em paz', ensina o venerável mentor, mas sou uma cabeça oca e não aprendo.
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Clientes jogando Pôquer de Birigui. Olha.
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A cliatula quer trabalhar. Quer muito muito muito trabalhar. Desde que não interrompa o fim de semana previamente planejado. Desde que seja legal. Desde que seja muuuuuuito bem pago. Desde que não canse. Desde que não lhe doam as costas, os polegares, os olhos, o pescoço. A cliatula não quer trabalhar.
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Dificilmente o mundo tem tempo para conspirar contra nós.
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Bolero gagazou. Não sabe onde ir, não sabe voltar. Acorda e fica deitadinho no mesmo lugar, olhinhos abertos, sem se mexer. No meio da madrugada acorda assustado e vaga pelo quarto miando desconsolado. Preciso levantar, pega no colo, deitar com ele e ficar falando baixinho. os miadinhos vão diminuindo, diminuindo e ele dorme de novo. Não reconhece a irmãzinha, só quando ela lambe a cara dele. Chora dormindo ou faz pppprrrrrrrrr. A veterinária que cuida dele há 10 anos até chorou. E Baco, que não dá a mínima pros gatos, fazendo aquelas coisas que quem não tem bicho não acredita quando a gente conta, sobe na cama, lambe a cabeça do veinho gagá, deita enrolado nele e dormem os dois amiguinhos enquanto mamãe trabalha. É tudo muito triste.
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Unhas roídas. Nem pergunte, você não quer saber.
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It is the cruelest of the torments of my great age that grief does not abate, not beyond a certain level. It merely continues, my only companion across oceans of time.
Paula Brackston _ The witch’s daughter


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